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Se Cuida | Abuso psicológico, a violência sem marcas aparentes.

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Uma violência muitas vezes tão sutil, que sua vítima – mulheres, em sua maioria – fracassa em reconhecê-la como tal. O abuso emocional é assim, um abuso da confiança, daquilo que a vítima considera seu sonho de amor e relacionamento.

Este tipo de violência é daqueles que não distingue níveis sócio- econômicos, raça ou credo, nem países desenvolvidos ou não. Pela condição histórica de submissão, o abuso psicológico mantém-se no segredo da vida privada, sendo muitas vezes ignorado por um longo período por suas vítimas, que confundem atenção, amor, ciúmes, proteção e controle com cuidado.

Incontáveis são as histórias de relacionamentos onde o homem ridiculariza a mulher e suas opiniões a respeito de qualquer tema, onde as mulheres não têm direito de escolher estudar ou trabalhar, pois seus algozes de uma forma muita velada, as convencem que eles não deixarão faltar nada a elas, portanto não há necessidade delas pensarem no próprio futuro.

A violência que não envolve danos físicos ou ferimentos corporais fica num lugar de difícil acesso, onde poucos querem olhar. No entanto o abuso psicológico está lá, muitas vezes tão sutil e velado que suas vítimas não conseguem reconhecer.
Infelizmente ainda vivemos em uma sociedade que ensina suas meninas que elas devem casar ter filhos e constituir família, não importa o custo para realizar estes feitos, e a partir daí, vemos meninas se tornando mulheres que tem como objetivo maior: casar. Embora todo casamento no qual haja abuso seja ruim, nem todo casamento ruim é abusivo. Há relacionamentos que são ruins por conta de traições ou incompatibilidade. Em relações de abuso, o parceiro (homens, em 95% dos casos), utiliza seu poder – manipulação ou força – para controlar a vítima.

O propósito de todo abuso psicológico, não é o de infligir dor, mas o de controlar, de se sentir no poder e no caminho para atingir esse poder, o abuso emocional destrói aos poucos o auto-respeito e a auto-estima da vítima, às vezes pode começar com uma reclamação e rapidamente chega no nível de críticas constantes, xingamentos em público, humilhação, depreciação, isolamento. O abuso psicológico é um jogo mental que destrói a saúde e a força de quem sofre. Estatísticas indicam que mulheres vítimas de abuso, tem até três vezes mais probabilidades de apresentar más condições de saúde do que aquelas que não são abusadas emocionalmente.
A manipulação existente numa relação abusiva faz com que o abusador se coloque dentro do cérebro da vítima convencendo-a de que os pensamentos e sentimentos em relação à si mesma sejam verdadeiramente dela. Ela se sente incapaz, fracassada, sem valor porque a voz do seu algoz ecoa dentro de sua mente por horas a fio. E então passa a acreditar nisso.

A mulher vítima de abuso psicológico permanece na relação, não porque deseja permanecer, mas porque se sente incapaz de ir embora. Quando se olha no espelho, ela não consegue se ver; tudo que ela pode ver, é a pessoa fracassada que seu abusador pintou. Sentimentos como culpa e esperança de que a história mude, também a fazem continuar dentro do ciclo, além do entorpecimento emocional, a idéia de que “já não dói tanto”, faz com que a vítima pare de lutar e aceite seu destino. Assim, ela fica.

Portanto, é cada vez mais significativo que falemos sobre esse tipo de violência, que embora não deixe marcas físicas, gera sofrimentos intensos durante um longo período. Ansiedade, depressão, estresse pós-traumático são apenas algumas das diversas consequências geradas pelo abuso psicológico, e quanto mais educarmos as pessoas, mais perto poderemos estar de mostrar o caminho para que as vítimas se sintam acolhidas e amparadas para então conseguirem se livrar do ciclo violento em que vivem.

Danielle Loureiro – Psicóloga / CRP 20/02328

Referência: Feridas invisíveis: abuso-não físico contra mulheres/ Mary Susan Miller. – São Paulo: Summus, 1999.

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